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Inteligência Artificial e desemprego

Texto publicado originalmente na coluna da Você S/A, em 2018.

O ano é 1812. O local é o condado de York, na Inglaterra. Um grupo com mais ou menos 70 pessoas invade a tecelagem de William Cartwright para quebrar todas as máquinas recém instaladas no local. Estava em cena o movimento ludista, que considerava o processo de industrialização e automatização como a maior causa do desemprego e da miséria humana.

Mas, na prática, o que se observou na história não foi um cenário tão apocalíptico como se pensa. A tecnologia acabou com postos de trabalhos e aniquilou profissões seculares, sim, mas ao mesmo tempo gerou demandas por profissionais mais qualificados, ainda que não na mesma quantidade e intensidade. A necessidade por torneiros mecânicos migrou para engenheiros capazes de projetar e instalar robôs. Esse é um movimento que fez parte do processo de evolução natural no mercado de trabalho. Pelo menos até agora. Porque agora é um novo momento.

As tecnologias que estamos desenvolvendo são diferentes das que desenvolvemos no passado. Se antes tínhamos máquinas que extrapolavam a nossa capacidade física e sistemas que faziam contas mais rápida que nós, agora estamos entrando na era da Computação Cognitiva. Impulsionada pelos avanços da Inteligência Artificial, essa é uma área que desenvolve programas que reconhecem linguagem, discursos e objetos visuais – simulando alguns de nossos sentidos – e que são capazes de aprender a partir disso. Os sistemas já não se limitam apenas em substituir nosso trabalho mecânico e repetitivo, mas conseguem atuar em atividades cognitivas, reconhecer padrões e tomar decisões melhor que nós, humanos, em determinados contextos.

 Esse arranjo tecnológico traz benefícios para a sociedade, como, por exemplo, o recente projeto da Universidade de Tóquio que utilizou o Watson da IBM para identificar, em 10 minutos, um tipo raro de leucemia em um paciente que havia sido diagnosticado incorretamente meses antes. O sistema conseguiu essa façanha ao comparar as mudanças genéticas com uma base de dados de 20 milhões de artigos científicos sobre câncer. Um médico sozinho jamais conseguiria ler essa quantidade de artigos em uma vida.

Por outro lado, esses mesmos sistemas colocam em xeque postos de trabalhos em áreas que estavam imunes. Já podemos encontrar casos práticos de advogados que são robôs, caminhões e ônibus que não precisam de motoristas e atendimentos por chatbots. Hoje especula-se sobre desemprego em massa, fim do trabalho e renda básica universal em futuro próximo.

Para se ter uma ideia da proporção dessa mudança no mercado de trabalho, um relatório da Mckinsey Global Institute aponta que mais de 800 milhões de empregos desaparecerão até 2030. O estudo ainda aponta que 60 por cento das ocupações têm pelo menos 30 por cento de suas atividades suscetíveis à automatização, e que isso criará ocupações que não existem hoje. Nessa mesma linha, um relatório publicado pela Foundation for Young Australians aponta que 60% dos jovens estão sendo educados para profissões que deixarão de existir.

O ano de 2018 está começando, então é um ótimo momento para fazermos uma reflexão e um planejamento para nos preparamos para essas mudanças que estão por vir. Não é fácil saber quais profissões de fato irão desaparecer ou surgir nos próximos anos, mas é possível fazer um exercício de prospecção para identificar quais as habilidades mais valiosas em um futuro dominado pela inteligência artificial e realidade virtual.

A criatividade ainda é a grande arma do ser humano contra as máquinas. Profissões que requerem esse tipo de habilidade em seu núcleo, como as de artista, designer, escritores, estrategistas empresariais, entre outras, são menos predispostas a serem automatizadas. Ocupações que envolvam inteligência social, competência cross-cultural e habilidades para construções de relacionamentos complexos também serão valiosas. Se eu tivesse que apostar em uma única profissão, eu certamente apostaria na de designer. Essa é uma área que engloba essas habilidades e permite a atuação em diversos segmentos: criação de produto, serviços e tecnologia. E são esses profissionais que criarão os universos de realidade virtual em que viveremos no futuro.