Banner com a palavra pós-verdade, impulsionada pelas deepfakes

O dicionário de Oxford escolheu a palavra “Pós-verdade” como a palavra do ano para 2016. E não foi à toa. Naquele momento o mundo se deu conta que as publicações de desinformação em massa estavam sendo utilizada para manipular a percepção das pessoas sobre a realidade e, consequentemente, a opinião pública para fins políticos. A desinformação rondou as sociedades durante toda a história da humanidade, mas o volume, a velocidade e o impacto tinham se tornado agressivos.

Uma boa narrativa pode moldar a nossa percepção sobre um fato. E se você conhece bem o interlocutor, pode ajustá-la para que funcionem como um anzol, pescando as suas preferências para levar sua atenção a outro lugar. Nas eleições de 2016, esse fator ficou mais aparente com o escândalo da Cambridge Analytica, que violou dados de mais de 50 milhões de usuários, por meio de um “inocente” teste psicológico, permitindo que a empresa entendesse melhor o comportamento e preferências de eleitores norte-americanos para direcionar histórias falsas que pudessem influenciar o seu voto. Por exemplo, talvez fosse de interesse da campanha de Trump que os eleitores cristãos ficassem sabendo que o Papa Francisco o apoiava para a Casa Branca. E uma notícia com este conteúdo, apesar de falsa, foi uma das mais compartilhadas no Facebook.

Muitas vezes a manipulação da realidade pode ter consequências ainda mais severas, como neste caso em que um boato dizendo que funcionava uma rede de pedofilia em uma pizzaria, cujo o dono era apoiador da Hillary, levou uma pessoa armada a invadir o local para resgatar reféns que nunca existiram. As eleições nos EUA abriram a discussão no mundo inteiro sobre o impacto que as redes sociais e a circulação de desinformação e notícias teriam nos pleitos que aconteceriam em diversos países.

Nas eleições de 2018 no Brasil, a atenção esteve voltada para a forma de empulsionamento de conteúdos e circulação de notícias falsas nas redes sociais. No entanto, alguns partidos e estrategistas foram mais espertos e entenderam que a plataforma do momento não era mais o Facebook e que, desta vez, deveriam usar a abusar do Whatsapp. Na época, entre o primeiro e segundo turno, a Folha publicou uma matéria mostrando que estava acontecendo disparos em massa de mensagem contra o PT no aplicativo. Só depois de um ano que o Whatsapp admitiu publicamente que isso realmente aconteceu.   

Vimos aqui uma mudança nas estratégias de disparo de notícias falsas das eleições americanas para as brasileiras. A plataforma mudou, assim como o tipo de conteúdo. Se na campanha do Trump havia muito conteúdo falso produzido em formato de notícia, na do Bolsonaro o foco foi manipulação de imagens e produção de conteúdos em formato de meme. O monitoramento e a coleta de dados no Whatsapp são mais difícil do que em uma rede social por conta de sua criptografia ponta a ponta e arquitetura distribuída, mas uma equipe de pesquisadores da UFMG conseguiu monitorar grupos públicos do aplicativo para entender o tipo de conteúdo que era transmitido ali durante as eleições. Eles identificaram que as duas imagens que estavam entre as mais compartilhadas eram falsas. A primeira era a de Dilma ao lado de Fidel Castro e outra de Adélio Bispo em uma caravana do Lula. Eu mesmo cheguei a ver a imagem da Dilma na época e não notei nenhum indício de alteração e manipulação, a não ser pelo fato de que a ex-presidente tinha apenas 11 anos quando a foto original do Fidel foi tirada.

Acompanho a evolução nos esquemas de desinformação há três anos e percebo esta mudança de comportamento no uso das plataformas, tecnologias e tipos de conteúdo. Fakenews são coisas do passado. A Inteligência Artificial está sendo usada para criar novas ferramentas de desinformação. No vídeo abaixo eu discuto sobre como Deepfakes podem ser armas para manipular o jogo democrático, impulsionar a pornografia e acabar com a reputação das pessoas – especialmente a das mulheres. Também apresento iniciativas que estão sendo criadas para que as sociedades não se percam ainda mais no universo da pós-verdade

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